Dentre as propostas da Ciclo Fraterno queremos também tratar a quebra de tabus, desmistificação da menstruação e acolhimento às pessoas menstruantes através da arte. A arte cura e exerce uma ferramenta poderosa de comunicação e reflexão de temáticas importantes. As manifestações artísticas são um processo singular da jornada humana. A cultura e a arte têm um igualmente importante em relação aos demais aspectos da vida sociopolítica.
Nesta publicação para nosso espaço artístico, a Claudia nos trouxe um poema. Que ele possa servir de reflexão para todes.
Francisca
Sempre gostou muito de ser criança
Hoje, porém, entristeceu-se ao ser surpreendida por um vizinho.
O homem questionou sua idade para as brincadeiras de rua,
olhando firme para o tenro botão em sua blusa, ele apontou o fim da meninice.
Em casa Francisca chorou,
não se via mulher, ainda preservava o gosto da infância,
mas aquele homem…
Por que olhou para ela daquele jeito?
Sentiu nojo, sentiu raiva,
principalmente por não ter conseguido responder nada.
Olhou-se de perfil no espelho e se acanhou,
como poderia ter vergonha do próprio corpo?
Aquele homem ousou sentenciá-la,
seu corpo não mais podia pertencer a infância.
Ela não se conformava,
O tamanho da vergonha não superava o rancor.
Continuou as brincadeiras, longe dos olhos perversos dele.
Outro dia, jogando bola, sentiu intensa dor abdominal,
foi para casa, mas a dor não cessava.
No banheiro percebeu que o vermelho escorria pelas pernas,
agora sim, convenceu-se que não era mais uma menina.
Ela, que não permitiu a interrupção da sua infância pelo julgamento masculino,
deparou-se com mais uma limitação para sua condição de mulher.
Durante três dias por mês Francisca paralisava sua rotina
Não ia à escola, não ia à padaria, não saía de casa,
as folhas de papel dobradas sobre a calcinha não dominavam o fluxo,
mas continham Francisca.

Claudia de Medeiros Lima
Claudia de Medeiros Lima é mulher. Doutoranda e Mestra em Educação pela Universidade Federal de Sergipe. Trabalha na área da educação há mais de vinte anos e atualmente é professora do Instituto Federal da Bahia. Nas horas vagas escreve contos, crônicas, poesias, uma verdadeira brincante de palavras.